Não consigo dizer dos tons pastéis. Me faltam as cores nas palavras para descrever o morno da vida. Não sobrou vida. Ficou o cansaço, o abandono, o tédio, a mesmice. Ficou nada.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Sonhado por Luciana Donadeli às 19:14 5 cafunés
extras: prosa poética
sei bem que queria saber-te na porta da varanda, com o lençol cobrindo o sexo e o peito tomando banho de sol. queria ter-te com olhar distante, sorriso satisfeito, cheirando a orgasmo do bom. iria rir a falta do cigarro que falta à cena que seria bela em película. mas cansei de satisfazer-me com devaneios e sublimações para secar a liquidez que me causa ao meio das pernas. então esqueci...
Sonhado por Luciana Donadeli às 14:02 0 cafunés
extras: prosa poética
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Ganhei o Primeiro Concurso Literário da Revista Trapiches com o conto Valsa de penas.
Parabéns pra mim!
http://www.trapiches.com.br/site/index.php?option=com_content&task=view&id=84&Itemid=38&limit=1&limitstart=1
sexta-feira, 13 de março de 2009
Rouge
A porta estava destrancada. Não recordava ao certo se a pressa lhe havia roubado a atenção e o cuidado no momento em que saiu correndo de casa.
Um copo estava sobre a pia, ainda com gotas de água e marcado por uma boca vermelha. Aquilo não combinava com sua obsessão por organizar cada mínimo detalhe da casa antes de sair. Também não combinava com o batom imperceptivelmente claro que usava.
O apartamento era pequeno, mas era o ideal para uma mulher ocupada como ela. A sala que dividia espaço com a cozinha e a aconchegante suíte não ocupava muito do seu raro tempo vago. Sentia que não precisava mais que aquele pequeno espaço para passar as míseras quatro horas em que não estava dormindo ou trabalhando na editora.
Havia um sobretudo preto já conhecido no braço de seu sofá. O sofá vermelho que sempre desejou. Embora lhe sugasse a vida, a editora lhe possibilitara a satisfação de vário dos seus pequenos desejos de consumo.
Amanda não sentia vontade alguma de se deparar tão rapidamente com seu invasor. Preferiu encher de água a chaleira, ligar o fogo e retirar do armário um saquinho de seu chá favorito. Talvez o alecrim tivesse alguma propriedade calmante que lhe servisse naquela hora, nunca tinha certeza sobre a serventia de cada chá.
Ao ouvir o chiado da água fervente pegou uma das canecas de louça de sua coleção. Era uma de suas favoritas, branca com listras pretas. Zebras sempre lhe encantaram. Serviu-se de água, açúcar e o pequeno envelope do chá.
Ao tentar o primeiro gole sentiu arder o lábio superior, a distração havia lhe roubado a atenção e o cuidado, esquecera de soprar.
_ Pensei que se interessaria mais ao ver sua casa invadida.
_ Interessaria se eu não suspeitasse da identidade do invasor.
O rosto pálido, emoldurado pelos cabelos vermelho vivo, ainda fazia seu estômago se contorcer. Apesar de todos aqueles anos, ainda não se acostumara com aquela exótica beleza. Apesar de todo aquele tempo, ainda sentia medo do que podia lhe causar aquela beleza.
_Esse lugar não mudou em nada desde que fui embora. Quanto tempo faz? Um ano?
_E por que haveria de mudar, Isabela? Eu gosto do apartamento do jeito que ele sempre foi. E já fazem dois ano que você simplesmente desapareceu.
_ Tudo isso? O tempo passa quando a gente se diverte.
Amanda deixara o chá de lado e agora segurava o rosto entre as mãos. Podia sentir uma sobra se aproximando e parando próxima ao sofá do seu lado.
_Por que diabos você voltou? O que você quer dessa vez? Estou cansada das suas idas e vindas, as coisas estavam melhores agora...
_ Minha querida, você sabe que sempre fui uma mulher do mundo, a minha profissão exige isso. Não posso fotografar a mesma cidade o resto da vida. Ainda mais esta porcaria de cidade.
A mesma história de sempre. Ao erguer o rosto, Amanda, a viu se encostar no sofá vermelho, cruzar as pernas e tirar do bolso os mesmos cigarros, com uma fumaça enjoativa, que sempre fumou. Os dedos pálidos com unhas de cor escarlate se aproximaram da boca depositando nela o cigarro por um breve momento. Quando eles se afastaram ela pode ver a marca vermelha que se formou no filtro do cigarro por grossos lábios. Lábios esses que agora soltavam um jorro de fumaça.
Já não se lembrava de quão belo Isabela tornava aquele simples ritual todas as vezes vez em que fumava. Agora foi a vez de seu coração se contorcer em seu peito.
_Não sabia que você era mulher de guardar rancores, Amanda.
_Você não pode sumir por anos e simplesmente voltar como se nada tivesse acontecido, como se o tempo não tivesse passado.
_Exatamente, passado. Não falemos mais do que passou, pensemos no futuro.
Amanda tentou barrar a aproximação erguendo as mãos e derramando lágrimas. Queria lutar, queria ser forte, mas parecia inútil lutar contra o desejo de seu próprio corpo.
E sem muito esforço Isabela tomou-a. Toucou-lhe, com a boca, a face. Os olhos. O queixo. O pescoço. Amanda não pode deixar de imaginar se sua domadora era capaz de perceber a umidade e o sal das lágrimas que agora corriam desesperadamente por sua face.
Já sem poder contar o tempo, foi levada até seus lençóis, também vermelhos. Mas não poderia, ainda não estava pronta. Havia tantas coisas que queria dizer e gritar. Havia tantas perguntas a serem feitas. Ainda ficaria emburrada por um tempo antes de permitir ser tocada por ela novamente.
Mas Isabela não esperava por permissão. Suas mãos e sua boca corriam pelo magro corpo de Amanda rápido, suave e delicadamente, como quem pede desculpar por algo que não pode evitar e nem deixar de se sentir feliz por fazê-lo.
Entretanto, quando os lábios finalmente se encontraram as indagações não mais existiram. Nada mais existiu. O mundo havia perdido seu espaço para o prazer, para a dor, para o desejo, para a repulsa e para as lágrimas. Um beijo que em segundos consumiu em seu fogo horas, dias, meses e anos.
Amanda sentiu a força retornar a cada parte de seu corpo. Mas não lutou, se não para se entregar. Desejou doar-se a ponto de não mais ter que ser sua. Ser totalmente dela. Desejou ser tão dela a ponto de não ter mais que ser um eu. Ser somente ela.
