quarta-feira, 1 de julho de 2009

Ganhei o Primeiro Concurso Literário da Revista Trapiches com o conto Valsa de penas.
Parabéns pra mim!


http://www.trapiches.com.br/site/index.php?option=com_content&task=view&id=84&Itemid=38&limit=1&limitstart=1

sexta-feira, 13 de março de 2009

Rouge

A porta estava destrancada. Não recordava ao certo se a pressa lhe havia roubado a atenção e o cuidado no momento em que saiu correndo de casa.
Um copo estava sobre a pia, ainda com gotas de água e marcado por uma boca vermelha. Aquilo não combinava com sua obsessão por organizar cada mínimo detalhe da casa antes de sair. Também não combinava com o batom imperceptivelmente claro que usava.
O apartamento era pequeno, mas era o ideal para uma mulher ocupada como ela. A sala que dividia espaço com a cozinha e a aconchegante suíte não ocupava muito do seu raro tempo vago. Sentia que não precisava mais que aquele pequeno espaço para passar as míseras quatro horas em que não estava dormindo ou trabalhando na editora.
Havia um sobretudo preto já conhecido no braço de seu sofá. O sofá vermelho que sempre desejou. Embora lhe sugasse a vida, a editora lhe possibilitara a satisfação de vário dos seus pequenos desejos de consumo.
Amanda não sentia vontade alguma de se deparar tão rapidamente com seu invasor. Preferiu encher de água a chaleira, ligar o fogo e retirar do armário um saquinho de seu chá favorito. Talvez o alecrim tivesse alguma propriedade calmante que lhe servisse naquela hora, nunca tinha certeza sobre a serventia de cada chá.
Ao ouvir o chiado da água fervente pegou uma das canecas de louça de sua coleção. Era uma de suas favoritas, branca com listras pretas. Zebras sempre lhe encantaram. Serviu-se de água, açúcar e o pequeno envelope do chá.
Ao tentar o primeiro gole sentiu arder o lábio superior, a distração havia lhe roubado a atenção e o cuidado, esquecera de soprar.
_ Pensei que se interessaria mais ao ver sua casa invadida.
_ Interessaria se eu não suspeitasse da identidade do invasor.
O rosto pálido, emoldurado pelos cabelos vermelho vivo, ainda fazia seu estômago se contorcer. Apesar de todos aqueles anos, ainda não se acostumara com aquela exótica beleza. Apesar de todo aquele tempo, ainda sentia medo do que podia lhe causar aquela beleza.
_Esse lugar não mudou em nada desde que fui embora. Quanto tempo faz? Um ano?
_E por que haveria de mudar, Isabela? Eu gosto do apartamento do jeito que ele sempre foi. E já fazem dois ano que você simplesmente desapareceu.
_ Tudo isso? O tempo passa quando a gente se diverte.
Amanda deixara o chá de lado e agora segurava o rosto entre as mãos. Podia sentir uma sobra se aproximando e parando próxima ao sofá do seu lado.
_Por que diabos você voltou? O que você quer dessa vez? Estou cansada das suas idas e vindas, as coisas estavam melhores agora...
_ Minha querida, você sabe que sempre fui uma mulher do mundo, a minha profissão exige isso. Não posso fotografar a mesma cidade o resto da vida. Ainda mais esta porcaria de cidade.
A mesma história de sempre. Ao erguer o rosto, Amanda, a viu se encostar no sofá vermelho, cruzar as pernas e tirar do bolso os mesmos cigarros, com uma fumaça enjoativa, que sempre fumou. Os dedos pálidos com unhas de cor escarlate se aproximaram da boca depositando nela o cigarro por um breve momento. Quando eles se afastaram ela pode ver a marca vermelha que se formou no filtro do cigarro por grossos lábios. Lábios esses que agora soltavam um jorro de fumaça.
Já não se lembrava de quão belo Isabela tornava aquele simples ritual todas as vezes vez em que fumava. Agora foi a vez de seu coração se contorcer em seu peito.

_Não sabia que você era mulher de guardar rancores, Amanda.
_Você não pode sumir por anos e simplesmente voltar como se nada tivesse acontecido, como se o tempo não tivesse passado.
_Exatamente, passado. Não falemos mais do que passou, pensemos no futuro.
Amanda tentou barrar a aproximação erguendo as mãos e derramando lágrimas. Queria lutar, queria ser forte, mas parecia inútil lutar contra o desejo de seu próprio corpo.
E sem muito esforço Isabela tomou-a. Toucou-lhe, com a boca, a face. Os olhos. O queixo. O pescoço. Amanda não pode deixar de imaginar se sua domadora era capaz de perceber a umidade e o sal das lágrimas que agora corriam desesperadamente por sua face.
Já sem poder contar o tempo, foi levada até seus lençóis, também vermelhos. Mas não poderia, ainda não estava pronta. Havia tantas coisas que queria dizer e gritar. Havia tantas perguntas a serem feitas. Ainda ficaria emburrada por um tempo antes de permitir ser tocada por ela novamente.
Mas Isabela não esperava por permissão. Suas mãos e sua boca corriam pelo magro corpo de Amanda rápido, suave e delicadamente, como quem pede desculpar por algo que não pode evitar e nem deixar de se sentir feliz por fazê-lo.
Entretanto, quando os lábios finalmente se encontraram as indagações não mais existiram. Nada mais existiu. O mundo havia perdido seu espaço para o prazer, para a dor, para o desejo, para a repulsa e para as lágrimas. Um beijo que em segundos consumiu em seu fogo horas, dias, meses e anos.
Amanda sentiu a força retornar a cada parte de seu corpo. Mas não lutou, se não para se entregar. Desejou doar-se a ponto de não mais ter que ser sua. Ser totalmente dela. Desejou ser tão dela a ponto de não ter mais que ser um eu. Ser somente ela.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Valsa de penas

No beiral de sua janela de vidro, que se arreganhara como uma mulher de vida fácil, o cantar perturbava-lhe o sono. O danado era pago para acordá-la todos os dias naquele horário, era a única explicação. Se sim, não pegava folga nem aos domingos, muito menos em feriado.
Feriado especial aquele. Em que, até ela que não trabalhava, teria motivo para comemorar. Mas antes de cair-se da cama e exibir ares de nova moça precisava dormir mais uma piscadela, pois lhe faltava umas horas de sono para ter completa sua noite da beleza.
E isso só lhe seria possível se o tal canário fechasse o bico e se colocasse em seu lugar. Não via que o dia era de princesa e seu? Não poderia gabar-se de quinze primaveras em outra data que não fosse aquela. Se bem que, nenhuma outra idade já passada lhe poderia dar esse direito.
Fora a primeira vez em anos que se animava por um aniversário. Ou era o que pensava. Não se lembrava dos mais antigos. Embora se fossem bons o suficiente se lembraria.
Levantou-se, por fim e a fim, para ensaiar sua valsa. Cá, lá, acolá, de lá. A camisola surrada balançava a renda de um lado para outro do mesmo modo que combaliam os bêbados em fim de noite.
E quando menos pode sua sanidade perceber, dançava uma valsa canária. Entoada por um maestro empenado, com melodiosos assovios aviários.
Ao fim de longos vinte minutos, agradeceu ao regente de sua orquestra com um abaixar de corpo, um esticar de mãos e um punhado de farelos. Os entregou não como esmolas a um mendigo, mas como oferta a um ser superior. A raiva, pelo visto, se fora.
Sem esperar o canto de agradecimento do músico esfomeado, correu pela casa aos saltos e rodopios trazendo ainda em seus ouvidos a doce melodia do passarinho.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

O problema em contar


Já cansada pela espera e com olhos ardendo em lágrimas, levantou-se do banco e subiu os degraus do ônibus. Não se preocupou em pagar a passagem, desceria logo. Tão pouco o cobrador chamou-lhe a atenção.
Clarice sentou-se no banco mais próximo. Sentou e nada. Pôs-se a esperar. Manteve o olhar vidrado passante pela janela. Olhava pessoas e postes correndo, contou dois e três, desistiu e deixou que ficassem sem ser contados. Não mudaria em nada. O nariz, pequeno demais a seu ver, por pouco não tocava o vidro. E sua respiração, mais acelerada que o comum, embaçava a vidraça.
Quando sentiu que o ônibus desacelerava levantou-se e logo desceu. Mais dois e três quarteirões, cinco e seis postes. Virou a esquerda e encontrou o que procurava. Havia meses que esperava a obra ficar pronta. E agora não esperaria nenhum segundo mais.
Teve lágrimas nos olhos mais uma vez. Ao subir os degraus, dois a dois, tropeçou e arrancou dos pés os sapatos que há horas lhe apertavam. Clarice sentiu-se aliviada por perceber o cimento frio sob os dedos. E mais aliviada ainda ao ver que havia vencido a altura e se encontrava já no topo da escadaria.
Lá estava, o topo do mundo. Um mundo pequeno e limitado. Que para si nunca tinha sido mais que a cadeira desconfortável do consultório frio onde trabalhava. Olhou novamente e queria mais. Apoiou-se nas mãos para subir no beiral da ponte e, por um breve instante, desequilibrou-se quando o vento soprou forte. Contou outra vez, agora os segundos. Um, dois, três. Exitou outros três. Respirou fundo, abriu os braços e virou-se dando as costas para o mundo. Esperava aquilo há tanto tempo.
Assim, desceu. Procurou os sapatos com os olhos e os encontrou em meio ao cinza das escadas para a qual voltou. E perguntou-se, em silêncio durante a descida, a que horas passaria o próximo ônibus que a levaria de volta ao consultório.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

E quem sabe gritar gol

Levantei-me do banco e compre lápis e folha branca em uma lojinha dessas pequenas que ficam bem no meio da rodoviária. Não resisti. Como disse certa vez Clarice, “escrever é uma maldição”. Simplesmente precisava passar para o papel minha indignação. E uma indignação cara, por sinal.
Não sei bem por que olhei para a lanchonete. Devia estar atenta à plataforma 17 aguardando o ônibus chegar, mas o caso é que olhei.
O rapaz da faxina se aproximou do balconista e lhe perguntou se não queria comprar um celular. Com desconfiança no olhar, o homem de meia idade que havia recebido a oferta pediu para ver o aparelho e pareceu satisfeito com o que via.
“Achei na pia do banheiro, parece ser novinho. Nem tirei o chip ainda”. Foi o que o garoto lhe disse.
No entanto, isso não pareceu valer os cento e cinqüenta reais que ele pediu pelo telefone. E o máximo que lhe extorquiu foi oitenta.
Num primeiro atordoado momento pensei não ter ouvido direito. Não por achar que o telefone valia mais, ou valia menos. Mas por me perguntar onde é que a honestidade se esconde.
Aliás, ela ainda existe?
Estou tão cansada de ouvir pessoas fazendo belos discursos na televisão e fazendo grandes campanhas, por crimes chamados hediondos, aqui e ali. No entanto, onde estão aqueles que deveriam gritar pela violência corriqueira que todos nós sofremos a cada dia?
Intriga-me muito pensar que o brasileiro move massas pelo assassinato de uma criança, mas não move um dedo para ajudar os milhares de pessoas que morrem de fome em conseqüência aos cofres públicos que são roubados.
Está mais que provado que se nos portássemos na área política como nos portamos com relação ao futebol o país seria outro. Pois se um técnico não faz seu time avançar a torcida logo o tira de sua cadeira aos berros. Entretanto, isso só ocorre nos gramados, certo?
Mais que tomar consciência disso, precisamos tomar atitude. Só tem o direito de reclamar aquele que tentou. E de nada adianta uma meia dúzia de gatos pingados desanimarem de tentar por serem poucos e não juntar uma multidão que consiga vencer.
Está na hora de levantar. Com o cuidado de não demorar pra fazê-lo ou então será tarde demais.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Os caracóis daqueles cabelos

Com uma saudade imensa de Araxá, me dirigi à rodoviária para garantir a passagem de ônibus que me levaria novamente para casa.
Após termos comprado nossos lugares, Juliana e eu, como boas mulheres que somos, não resistimos a uma visita ao shopping. Não que fossemos gastar o dinheiro que nos falta com algo, mas olhar vitrines nunca deixa de ser interessante, mesmo com os bolsos vazios.
Um passeio, uma espiada na livraria e um sorvete depois, sentamos no ponto de ônibus aguardando o meio mais fácil e também mais demorados para voltarmos ao pensionato.
Parecia tudo comumente monótono até que eu a vi sair do carro. Ela se virou e começou soltar os cabelos. Eles desciam por suas costas, sobre as ancas até que lhe chegou às panturrilhas e – meu Deus- como era grande o cabelo!
Não que seja para mim a coisa mais estranha já vista. Mas a curiosidade nasceu rápido como foguete e começamos, Juliana e eu, a nos questionar coisas impensáveis em outra situação.
Como seria para dormir com aquele cabeço gigante? Não se embaraçaria nele?
E para lavar, necessitava de ajuda? Quanto xampu seria gasto?
Enfim, por que um cabelo daquele tamanho?
Foram tantas as coisas pensadas e as bobagens ditas que não faltaram risos para tornar menos tediante a espera pelo ônibus.
Não quero ser julgada injustamente. Sou humana e curiosa por excelência. Se pareceu maldade de nossa parte, deixo desde agora o pedido de perdão!
A conversa foi encerrada de brusco ao ver retornar a tal mulher dona daquele cabelo descomunal. Mas infelizmente não pudemos ver-lhe novamente de cabeleira solta.
E logo em seguida, a espera foi encerrada. Lá vinha o ônibus e o que sobrou foi apenas história para contar.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Rosas e perdão


O lençol branco, amarrotado sobre a cama e levemente umedecido pelo suor da noite febril, parecia ser a única testemunha da difícil noite pela qual havia passado. Não era doença alguma que lhe roubara o sono.
A menos que possa se julgar o amor como se julga uma doença. E talvez o seja. Talvez seja o amor a pior de todas as doenças.
Pois ele a fez rolar pela cama durante horas, intercalando silêncios de pensamentos vazios e gritos desesperados de dor...
Teria sido impossível contar as lágrimas derramadas.
O motivo do choro? Talvez ela só quisesse uma presença agradável para lhe aquecer a cama. Ou talvez quisesse alguém que a fizesse se sentir amada novamente. Mas o importante, é que precisava de alguém. Não de qualquer um, precisava dele!
Seria muito querer de volta as tardes quentes passados na grama do parque ou o refrigerante dividido no cinema. Coisas assim não voltam.
Devia ter implorado perdão de joelhos ou dado um tiro na boca quando o ouviu dizer que iria embora e não voltaria mais. Poderia ter corrido atrás do seu carro, gritado ou ao menos ter-lhe agarrado os pés obrigando-o a ficar.
Há tanto que poderia ter feito. Há tanto que devia ter feito.
Era covarde e não merecia uma nova chance. Não o merecia. Não passava de uma idiota que desperdiçou o amor que lhe foi dado. Não era nada além de nada.
Não desistiria e correria atrás daquele que era, sem sombras de dúvida, o homem de sua vida? Iria deixar cheia a caixa de mensagens com pedidos de perdão? Mandaria rosas e cartas e chocolates a fim de reconquistá-lo?
Era o que pensava em fazer.
Mas isso foi antes. Antes de se cobrir novamente com o lençol e voltar a chorar.